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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Viagem 53: O milagre da multiplicação dos corações

Hoje a boleia é no minimo estranha... Como é possivel experimentar-se uma imensa felicidade e uma imensa angustia praticamente em simultaneo?

É oficial a Maria Catarina anda sozinha desde ontem, 16 de maio. Tanto que lhe disse que não tinha permissão para fazer estas coisas pela primeira vez e de modo consistente sem ser ao pé de mim mas não, a nossa história está feita de ousadias como esta da sua parte, começou logo com o dia escolhido para nascer: disse-lhe que só podia ser depois de 20 mas não, ela escolheu 11 e não foi do mês seguinte.

É com extrema felicidade que demoro minutos intermináveis a descer umas escadas que faria em metade do tempo porque ela insiste em fazê-lo sozinha. É com extrema felicidade que a vejo andar de um lado para o outro como que a treinar vezes e vezes sem conta. É com extrema felicidade que lhe mudo o pijama depois do jantar porque a miss insiste que só come sozinha.

Enfim, é com extrema felicidade que a vejo crescer...

É com uma angustia inexplicável que vejo o Francisco roxo, com a cabeça para trás. É com uma angustia inexplicável que o vejo com olhos de quem não vê e a babar-se incontrolavelmente.

É com uma angustia inexplicável que constato mais um curto-circuito.

É com uma angustia inexplicável que tenho que o amparar enquanto ele tenta titanicamente andar mas sem um pingo de forças para ter as pernas direitas...

É ou não é o milagre da multiplicação dos corações aquele que acontece sempre que conseguimos experimentar uma felicidade extrema pela conquista de um, ao mesmo tempo que experimentamos a mais inexplicável das angustias por outro?

Há boleias dificeis e esta é uma delas...

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Viagem 29: O mundo mudou

Na madrugada de 24 de Outubro de 2004 o mundo mudou!

Na madrugada de 24 de Outubro de 2004 senti no corpo, na pele, na alma a indescritível sensação que é poder perder um filho. Não era uma miragem, não era uma mera hipótese, era uma possibilidade bem real, bem concreta, bem ali diante dos meus olhos, no meu colo, colado ao meu peito completamente encharcado.

Até ao hospital sussurrei-lhe ao ouvido sem parar: por favor não morras! Por favor não morras! Para mim pensava: isto não pode estar a acontecer mas se for para morrer que não seja ao meu colo...

Não teria tido colo para mais ninguém...

Na madrugada de 24 de Outubro de 2004 com a primeira convulsão o meu mundo mudou!

terça-feira, 12 de abril de 2011

Dia 14: 5,300Kg / 62cm



Esta é a fotografia oficial dos seus estrondosos 4 meses.

Com 5,300Kg de peso e 62cm de comprimento, a Maria Catarina está uma miss (com crista é certo) que adora esplanadas solarengas!!! Não deixará nunca de ser a minha mosquitinha de tão pequenina que era quando a conheci há exactamente 4 meses e 1 dia.

Não sei como, a apreensão apanhou boleia para ficar. Está a aproximar-se a passos largos aquele timing: faltam exactamente 2 meses, 2 semanas e 6 dias para atingir os 6 meses e 3 semanas...

Até há 3 semanas não dava boleia a pensamentos destes mas agora confesso: estou apavorada!

Eu sei! Já toda a gente me disse que não posso pensar nisso. Já toda a gente me disse que os miudos são todos diferentes. Já toda a gente me disse que por ter acontecido a um não tem que acontecer ao outro. Já toda a gente me disse que não se pode pensar nisso assim.

Eu digo a toda a gente que só diz coisas destas quem nunca passou por um aperto. A intenção é das melhores, eu sei. Mas mostra como nem sempre se sabe do que se está a falar...

Lido com convulsões daqui a pouco hà 7 anos, já assisti a tantas que lhes perdi o conto, não são elas que me afligem, já me afligiram. Agora eu vejo as horas, controlo a sua duração, decido se aplico medicação de emergência, etc. e tal.

O que me aflige é ver um filho naquele estado, o que me aflige é sempre que uma convulsão termina pôr-lhe a mão no peito para sentir o seu coração a bater, o que me aflige é não conseguir andar sem telemóvel quando ele não está comigo, o que me aflige é saber que nunca, mas mesmo nunca me posso esquecer das aflições, o que me aflige é sempre que ele está mais sossegado eu ter que o chamar para saber se está tudo bem, o que me aflige é saber que ele se pode magoar, o que me aflige é pensar como é que os outros vão reagir quando o veêm em curto-circuito, o que me aflige é que sempre que o vou ver enquanto dorme, não vou ver se está tapado, eu vou ver se está vivo!

E agora já não é nada...

É à boleia de todas estas aflições que não sei se consigo passar por tudo outra vez!