segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Viagem 18: 5 anos depois

Hoje apanhei boleia até ao dia 22 de Agosto de 2006.


Há exactamente 5 anos começava uma viagem que duraria pelo menos um mês. A 22 de Agosto, eu e o Francisco entre outras coisas, jantámos fora e clandestinamente trouxemos connosco uma "amiga" salmonela.

Lembro-me muitas vezes deste episódio.

A cada 22 de Agosto, noite em que tudo começou, revivo os momentos que me lembro (porque muito do que aconteceu eu não me lembro) com muita intensidade: os desmaios, a fraqueza, o estado de inconsciência/consciência, os rostos das pessoas que me visitaram e a quem eu não consegui falar mas que com a sua presença me faziam crer que o assunto devia ser sério, o barulho e as luzes dos cuidados intensivos, as vozes a pedirem colaboração, a minha incapacidade para corresponder, as picadas para encontrar veias a dada altura verdadeiramente impossiveis de captar, as fraldas, a algalia, as duas horas de manhã e à noite de medicação intravenosa ininterrupta, o chá como única refeição, a máscara de oxigénio, a ginástica respiratória de manhã e à tarde, o primeiro creme de cenoura do hospital, os doze infindaveis dias no hospital, as onze infindaveis noites no hospital, enfim...

A cada 22 de Agosto me pergunto porque é que fui poupada...

A cada 22 de Agosto fico especialmente pessimista ao contrário do que seria de esperar e de toda a sorte que tive.

A cada 22 de Agosto tento com muito mais força, dar sentido a tudo o que me rodeia.

Hoje, 22 de Agosto, 5 anos depois, não consigo pensar de forma diferente.

É à boleia de tudo isto que desejo ardentemente que no mês de Agosto os dias passem de 21 para 23.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Viagem 17: E eu não fui...

Ontem queria ter apanhado boleia mas não consegui fazer a viagem.

Eu queria tanto ter ido... A minha vontade era tal que nem fui capaz de lidar com todos os pensamentos maus que me invadiam.

Há mais de uma década em Junho, eu estive em Alvalade: cheguei de manhã com o almoço às costas, corri quanto pude (e eu não posso muito no que diz respeito a essa matéria) para ficar o mais à frente possivel; quando lá cheguei sentei-me e estiquei as pernas para ter mais espaço, como combinado. Aguentei estoicamente todo o dia sem nunca abandonar o meu lugar. E como valeu a pena...

Há três anos eu estive no Parque da Bela Vista, foi uma noite memorável manchada por um dos acontecimentos mais tristes...

Ontem, no Parque da Bela Vista, eu não apareci e isso deixou-me fora de mim. São estas sensações que confirmam que não fui feita para a vida que tenho.

Na Comercial, às nove e qualquer coisa consegui ouvir John Bon Jovi dizer Lisbon rase your hands! Estupidamente as lágrimas corriam-me e eu pensava bolas, bolas!!! É mesmo verdade, está a acontecer sem mim. Aqui estou eu preocupada com jantares, roupa lavada, chuchas e fraldas! Eu desejava coisas tão diferentes... 

Perdida nestes pensamentos infantis, encontrei a Maria Catarina a sorrir tão convictamente para mim que transformou todas as ridiculas lágrimas em estridentes gargalhadas, dançámos tanto ao som de bom rock! De repente dou por mim a lamentar que ela não se lembre destes momentos fenomenais...

Os Bon Jovi ganharam uma fã. Eu percebi que aqui era o meu lugar...

É à boleia de tudo isto que vou continuar, entre outras coisas a preocupar-me com jantares, roupas, chuchas e fraldas!

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Dia 16: Devaneios....

Passados mais de três meses, hoje voltei a apanhar boleia!

O relógio é implacável e não dá benesses... Quando dei por mim constatei que não usava as teclas desta tela desde Abril. E quanta coisa aconteceu, e quanta vontade eu tive de escrever mas, daqui a pouco será mais tranquilo... três meses depois e a tranquilidade não chegou a chegar!

Foi dia da mãe, foi dia de comemoração de oito anos de casamento, foi dia de voltar a trabalhar oficialmente, foi dia de curto-circuito, foi tempo de campanha eleitoral, foi dia de eleições, foi noite de afastamento de Sócrates,  foi dia de baptizado, foi dia da primeira papa, foi dia da tomada de posse do novo governo, foi dia da primeira sopa, foi dia de fim de ano lectivo, foi dia de curto-circuito, foi tarde de festa de final de ano, foi dia de mais um estranho casamento real, foi dia de inscrição da Maria Catarina na Creche.

Que estranho! Parte de mim anseia pelo dia 1 de Setembro, parte de mim deseja contrariar o movimento implacável do relógio e pará-lo agora mesmo até... até sempre.

Será estranho mas aliviante voltar a viver os dias sem preocupações colaterais, acho que vou respirar de alivio por não ter que me ocupar das fraldas, das comidas, dos choros, das chuchas perdidas, dos sonos contrariados e de mais isto e de mais aquilo. Ainda assim há sete meses e quase e meio que vivo em dualidade não sei se me lembro como é ser uma só...

Com tudo isto ganho uma certeza: não posso estar tanto tempo sem apanhar boleia!

sábado, 16 de abril de 2011

Dia 15: Grrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr...

Hoje, Sábado durante o meu ritual habitual da manhã: umas belas torradas de pão de quilo, um chá com sabor a morango, a televisão na FOX/FOX LIFE e o computador a navegar a todo o vapor pelas principais noticias do país e do mundo, apanhei boleia da indignação que me invade sobre o estado do nosso país. não resisti, no facebook tornei-me "amiga" do PSD e escrevi o seguinte no seu mural:

«Já se interrogaram porque é que as sondagens nos mantêm tão perto do PS?

Onde tinham os senhores a cabeça quando escolheram os cabeça de lista para as próximas eleições legislativas? Caso ainda não tenham percebido e cada vez estou mais convencida que não perceberam, vivemos uma situação muito mas mesmo muito complicada. Não íam procurar os melhores, os mais capazes? Quer dizer, isso era o que deviam fazer, ao invés fizeram como de costume, trataram do vosso quintalinho... Onde foram parar os critérios de exigência e competência? O Dr. Fernando Nobre como cabeça de lista em Lisboa?!? Eu sou social-democrata que ainda por cima vota pelo ciclo de Lisboa, expliquem-me como posso votar numa lista encabeçada pelo Dr. Fernando Nobre, anti-partidário convicto em Janeiro e completamente rendido a tachos em Abril? Não existe defesa nem explicação possivel, ele afirma que não conhece o programa eleitoral, assinou de cruz. Ele adverte que renunciará se não fôr presidente da AR, mas o que é isto?

O Dr. Fernando Nobre conhece alguma coisa sobre o PSD que não pode ser público? Somos um partido assim com tão pouca auto-confiança que achamos que temos que ficar associados a personagens avidas de protagonismo para conseguirmos votos? Honestamente, qual pode ser o contributo desta pessoa para que o partido potencialize uma verdadeira mudança para o país? Estamos exactamente na mesma: os cidadãos a sentirem as medidas no seu quotidiano e os politicos num mundo completamente à parte preocupados com questões menores, mesmo muito menores: quem tem culpa da crise, como foi avisado o lider da oposição sobre o PEC, quem mandou e recebeu sms's, etc.

Concluo com enorme pesar que mais uma vez estamos a prestar um óptimo serviço ao PS, na noite de 5 de Junho depois de lhes darmos os parabéns pela sua vitória vamos falar também sobre a nossa vitória: é o costume em noite eleitoral todos os partidos ganham. Sabem é que se é para continuar a ser mau (e os Srs. não tenham dúvidas que o caminho que estão a fazer é péssimo e não trará resultados) os eleitores preferem optar pelo que já conhecem... é uma questão de familiariedade!»

Fiquei mais aliviada! Tenho a certeza de que eles não vão ler e de que eu irei votar em branco...

Ainda assim, acho fundamental continuar a dar boleia à indignação!

terça-feira, 12 de abril de 2011

Dia 14: 5,300Kg / 62cm



Esta é a fotografia oficial dos seus estrondosos 4 meses.

Com 5,300Kg de peso e 62cm de comprimento, a Maria Catarina está uma miss (com crista é certo) que adora esplanadas solarengas!!! Não deixará nunca de ser a minha mosquitinha de tão pequenina que era quando a conheci há exactamente 4 meses e 1 dia.

Não sei como, a apreensão apanhou boleia para ficar. Está a aproximar-se a passos largos aquele timing: faltam exactamente 2 meses, 2 semanas e 6 dias para atingir os 6 meses e 3 semanas...

Até há 3 semanas não dava boleia a pensamentos destes mas agora confesso: estou apavorada!

Eu sei! Já toda a gente me disse que não posso pensar nisso. Já toda a gente me disse que os miudos são todos diferentes. Já toda a gente me disse que por ter acontecido a um não tem que acontecer ao outro. Já toda a gente me disse que não se pode pensar nisso assim.

Eu digo a toda a gente que só diz coisas destas quem nunca passou por um aperto. A intenção é das melhores, eu sei. Mas mostra como nem sempre se sabe do que se está a falar...

Lido com convulsões daqui a pouco hà 7 anos, já assisti a tantas que lhes perdi o conto, não são elas que me afligem, já me afligiram. Agora eu vejo as horas, controlo a sua duração, decido se aplico medicação de emergência, etc. e tal.

O que me aflige é ver um filho naquele estado, o que me aflige é sempre que uma convulsão termina pôr-lhe a mão no peito para sentir o seu coração a bater, o que me aflige é não conseguir andar sem telemóvel quando ele não está comigo, o que me aflige é saber que nunca, mas mesmo nunca me posso esquecer das aflições, o que me aflige é sempre que ele está mais sossegado eu ter que o chamar para saber se está tudo bem, o que me aflige é saber que ele se pode magoar, o que me aflige é pensar como é que os outros vão reagir quando o veêm em curto-circuito, o que me aflige é que sempre que o vou ver enquanto dorme, não vou ver se está tapado, eu vou ver se está vivo!

E agora já não é nada...

É à boleia de todas estas aflições que não sei se consigo passar por tudo outra vez! 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Dia 13: Uma casa de pedra

Hoje, ou melhor ontem, Domingo apanhei boleia do sol até à praia com as crias. Este Abril já conheceu dias mais convidativos à contemplação do sol mas não se estava mal...
O primogénito correu, correu, correu até mais não na praia atrás da bola com o pai. Eu e a miss ficámos na esplanada: ela a dormir eu a ler o meu expresso cor de rosa. É curioso como consigo coisas da segunda vez que da primeira pareciam absolutamente inatingiveis. Aos 4 meses do Francisco eu não conseguia fazer nada. E não, não era culpa dele. Ele era um paz de alma... Eu é que não tinha prática!
Perdido o jogo da bola voltámos a apanhar boleia em busca de caracóis. Eu pensava que hoje em dia os caracóis eram como a fruta: não tinham época. Enganei-me ainda não é tempo deles mas, o tempo começa a ficar bom, a esplanada convida e eu achava que havia pratos de caracóis para coroar o fim do fim de semana, embora para mim seja sempre Sábado.

No caminho, entre casas médias, pequenas e grandes dei comigo a pensar que gostava de ter uma casa de pedra. Uma casa forrada integralmente a pedra. E depois constatei que construí uma casa de palha. Hoje vivo numa casa de palha que não sei como, resistiu ao temporal do Inverno.

Sem bussola nem mapa, não encontro o Norte. O aperto na barriga é tal que chega a ser arrepiante. O peso no peito é tal que chega a ser insuportável. O nó na garganta é tal que impede as lágrimas de sairem. Os ses atropelam-se em catadupa.
É à boleia destas aensações que só me apetece soprar a casa...

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Dia 12: E vão 3

Apanhei boleia há exactamente 1 mês!
O Francisco ficou hoje oficialmente desdentado novamente e pela terceira vez. A cria ficou verdadeiramente feliz, acredita estar a crescer!

Assistir de camarote a esse crescimento é uma boleia de emoções: é um privilégio mas um nó na garganta. Todos os marcos alcançados são degraus subidos rumo à autonomia que se deseja mas que se abomina.

Degrau 1: nascimento dos dentes; degrau 2: gatinhar / andar; degrau 3: largar as fraldas; degrau 4: comer sozinho e de tudo; degrau 5: vestir-se sozinho; degrau 6: entrar para a escola (a sério); degrau 7: ler e escrever ainda que de modo engasgado; degrau 8: queda dos dentes; etc.. 

A escadaria é enorme e eu sou o corrimão, o anti-derrapante e a luz de emergência. O Francisco é o primeiro a trilhar o caminho e este tem-se revelado sinuoso, não há mapa e isso tem dificultado as coisas. Não tem sido fácil mas ele é um lutador e não se dá por vencido com facilidade.

É à boleia desta subida que vos digo: ele está a crescer!