segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Viagem 23: Tontarias

Hoje, 9 meses e 1 dia depois de nascer a Maria Catarina viveu uma nova experiência: ficou doente e eu apanhei boleia até ao atendimento permanente.

Chegámos cedo e saímos tarde: a bexiga não colaborava, quando a bexiga decidiu colaborar a temperatura resolveu dificultar: resultado horas a fio no atendimento permanente, e quanta coisa se passa no atendimento permanente!

A minha tarefa não era árdua: 1ml de miltina de 5 em 5 minutos, controlo do saco de urina e controlo da temperatura mas, nunca sofri de tédio. Que falta me fez uma folha de papel e uma caneta!

Passei a tarde a ver crianças a fazerem dos adultos gato e sapato! É verdadeiramente impressionante observar as figuras de tolos que os adultos fazem...

A menina espirra e vai ao atendimento acompanhada por 1 mãe, 1 avó, 1 avô, 1 mala térmica com 1, 2, 3 lanches (todos para a menina), 1 penico, 1 muda de roupa interior para cada vez que vai à casa de banho e um sem número de brinquedos; na triagem traz indicação para se despir; vai ao médico, volta com indicação para análises à urina e aerossol.


Primeira etapa - tirar a roupa: 1 mãe implora para 1 filha tirar a camisola; 1 avó argumenta que muitos meninos estão sem roupa e por isso não é preciso ter vergonha, 1 avô tenta entrar na conversa e leva uma rabecada de 1 mãe que diz que é preciso ter calma com a menina.

Segunda etapa - análises: 1 mãe, 1 avó, 1 avô, 1 penico, todos numa casa de banho minima para conseguirem umas miseras pinguinhas de xixi.

Terceira etapa - aerossol: 1 mãe e 1 enfermeiro com 1 avó a espreitar; choro interminável como se o mundo fosse acabar já ali, naqueles instantes; 1 avó que leva água para acalmar a menina que está em sofrimento a fazer o aerossol; 1 avó que vem chamar 1 avô porque a menina quer é o avô; 1 mãe que desiste pelo menos 7 vezes de fazer o aerossol porque lhe parte o coração ver 1 filha naquele sofrimento...

Que falta me fez uma folha de papel e uma caneta!

Como esta vi pelo menos mais cinco histórias. Como esta vi pelo menos mais cinco familias a alimentarem o monstro da tirania que se passeava por entre os brinquedos, e não é uma metáfora: enquanto esperavam pela sua consulta qualquer destes 5 tiraninhos brincavam entusiasticamente.

É à boleia de observações como esta que me pergunto para onde caminhamos...

P.S.: Espero que a Estrelinha da Sorte da Matilde tenha estado atenta e ao serviço, ela precisava mesmo!

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Viagem 22: Uma estrelinha da sorte

De manhã, enquanto andava no trânsito apanhei boleia do trânsito em si.

Então não é que os peões estavam todos possuidos por atitudes suicidas, e para a loucura ser total: possuidos por atitudes suicidas nas passadeiras com semaforos vermelhos para os peões! Revelou-se dificil atravessar a Amadora sem deitar nenhum peão abaixo. Prova superada com sucesso! Peões no chão:0.

Avançando os vários niveis do caminho até ao destino final, ocorreu-me que neste mesmo dia 7 de Setembro se comemora mais uma efeméride: há exactamente 15 anos a minha estrelinha da sorte mostrou estar muito, muito atenta.

Foi ela que me protegeu e permitiu sair de um brutal acidente de viação com apenas uma singela nódoa negra no cotovelo esquerdo e sem carro. É bem verdade que não tive culpa nenhuma: eu estava completamente parada, com o carro desligado e ainda assim voei mais de 500m. Quantos em circunstâncias semelhantes não têm muito azar? Quantos em circunstâncias semelhantes não têm a sua estrela da sorte ocupada com outras coisas?

A minha estrelinha tem mostrado estar sempre ao serviço, e tem sido forçada a mostrar serviço muitas vezes.

É à boleia de efemérides como esta que digo: Obrigada estrelinha da sorte!

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Viagem 21: Mais uma vez: Devaneios

Hoje apanhei boleia na esperança de arrumar a minha cabecita, ou pelo menos na esperança de fazê-la correr mais devagar.

Volta e meia fico assim: muito agitada, tenho tanto para dizer, tanto para fazer, tanto em que pensar e tantos mas tantos pensamentos que tudo aqui dentro  anda aos trambolhões, escrever ajuda a pô-los na linha.

No meio de tanto devaneio, no meio de tantas ideias desordenadas a assaltarem o papel reparei que comemorei no passado Domingo, 4 de Setembro,  6 meses de boleias por aqui e já com 20 viagens feitas.

Tantas coisas aconteceram...

A todos os que têm acompanhado este trajecto, a todos os que têm sido passageiros frequentes nesta viagem, a todos os que apanharam boleia durante estes 6 meses: MUITO OBRIGADA!

Escrever é muito organizador e não deixa de ser reconfortante verificar que pessoas apanharam boleia mais de 1000 vezes, nunca pensei que o que me vai na alma interessasse tanta gente...

É à boleia de devaneios como este que espero por aqui andar daqui a 6 meses!

domingo, 4 de setembro de 2011

Viagem 20: Fora do ninho

Hoje quem apanhou boleia foi o Francisco que sem hesitar saiu do ninho.


A temática recorrente do Verão foi dormidas fora com saco cama e sem mãe nem pai, mas a nuvem dos curto-circuitos vinha perturbando a concretização de tal desejo.


O tio Alexandre antes de voar até aos States resolveu com a tia Andreia satisfazerem tal vontade. E por isso a esta hora, lá está ele a viver o seu desejo... e que contente que ele está!

É costume o antes ser mais vivido que o durante mas ao ver a sua felicidade através do skype diria que está a viver o durante com a mesma intensidade com que viveu a última semana, e que excitação!

Tanta felicidade deixa-me de coração cheio e muito, muito orgulhosa porque apesar dos pesares foi ele quem "tratou" de tudo: ele manifestou a sua vontade, os tios aceitaram o repto; ele falou com o pai e deu a resposta aos tios; no dia combinado pôs a sua mochila às costas com tudo o que achava  essencial e fez o caminho sem nunca, por um instante só hesitar. 

É a primeira vez que ele dorme fora de casa sozinho por escolha própria, há 5 anos ele dormiu uma semana em casa da avó Graça porque eu estava em conversações com a salmonela e ele não opinou nada, há quase 4 anos ele dormiu uma noite em casa da avó Noémia por causa da substituição da tampa do pai e ele não foi tido nem achado. Nenhuma dessas vezes conta.

Apanho boleia de toda a sua felicidade e assisto de camarote à sua conquista!

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Viagem 19: Tudo a postos...

Hoje é o dia...




Hoje é o dia em que começas a enfrentar o mundo sozinha.
Hoje é o dia em que passarás a chamar tua à minha escola.
Hoje é o dia e está tudo a postos...

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Viagem 18: 5 anos depois

Hoje apanhei boleia até ao dia 22 de Agosto de 2006.


Há exactamente 5 anos começava uma viagem que duraria pelo menos um mês. A 22 de Agosto, eu e o Francisco entre outras coisas, jantámos fora e clandestinamente trouxemos connosco uma "amiga" salmonela.

Lembro-me muitas vezes deste episódio.

A cada 22 de Agosto, noite em que tudo começou, revivo os momentos que me lembro (porque muito do que aconteceu eu não me lembro) com muita intensidade: os desmaios, a fraqueza, o estado de inconsciência/consciência, os rostos das pessoas que me visitaram e a quem eu não consegui falar mas que com a sua presença me faziam crer que o assunto devia ser sério, o barulho e as luzes dos cuidados intensivos, as vozes a pedirem colaboração, a minha incapacidade para corresponder, as picadas para encontrar veias a dada altura verdadeiramente impossiveis de captar, as fraldas, a algalia, as duas horas de manhã e à noite de medicação intravenosa ininterrupta, o chá como única refeição, a máscara de oxigénio, a ginástica respiratória de manhã e à tarde, o primeiro creme de cenoura do hospital, os doze infindaveis dias no hospital, as onze infindaveis noites no hospital, enfim...

A cada 22 de Agosto me pergunto porque é que fui poupada...

A cada 22 de Agosto fico especialmente pessimista ao contrário do que seria de esperar e de toda a sorte que tive.

A cada 22 de Agosto tento com muito mais força, dar sentido a tudo o que me rodeia.

Hoje, 22 de Agosto, 5 anos depois, não consigo pensar de forma diferente.

É à boleia de tudo isto que desejo ardentemente que no mês de Agosto os dias passem de 21 para 23.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Viagem 17: E eu não fui...

Ontem queria ter apanhado boleia mas não consegui fazer a viagem.

Eu queria tanto ter ido... A minha vontade era tal que nem fui capaz de lidar com todos os pensamentos maus que me invadiam.

Há mais de uma década em Junho, eu estive em Alvalade: cheguei de manhã com o almoço às costas, corri quanto pude (e eu não posso muito no que diz respeito a essa matéria) para ficar o mais à frente possivel; quando lá cheguei sentei-me e estiquei as pernas para ter mais espaço, como combinado. Aguentei estoicamente todo o dia sem nunca abandonar o meu lugar. E como valeu a pena...

Há três anos eu estive no Parque da Bela Vista, foi uma noite memorável manchada por um dos acontecimentos mais tristes...

Ontem, no Parque da Bela Vista, eu não apareci e isso deixou-me fora de mim. São estas sensações que confirmam que não fui feita para a vida que tenho.

Na Comercial, às nove e qualquer coisa consegui ouvir John Bon Jovi dizer Lisbon rase your hands! Estupidamente as lágrimas corriam-me e eu pensava bolas, bolas!!! É mesmo verdade, está a acontecer sem mim. Aqui estou eu preocupada com jantares, roupa lavada, chuchas e fraldas! Eu desejava coisas tão diferentes... 

Perdida nestes pensamentos infantis, encontrei a Maria Catarina a sorrir tão convictamente para mim que transformou todas as ridiculas lágrimas em estridentes gargalhadas, dançámos tanto ao som de bom rock! De repente dou por mim a lamentar que ela não se lembre destes momentos fenomenais...

Os Bon Jovi ganharam uma fã. Eu percebi que aqui era o meu lugar...

É à boleia de tudo isto que vou continuar, entre outras coisas a preocupar-me com jantares, roupas, chuchas e fraldas!